Desapegar é preciso

Muito me perguntei como iniciaria este blog, sobre o que seria o primeiro post. Poderia falar sobre o que nos levou a tomar a decisão da mudança, sobre o processo em si, porque escolhemos Toronto, ou até mesmo porque o Canadá. Resolvi deixar estes assuntos para posts futuros, e focar em algo que é um dos meus sentimentos predominantes desde que tal decisão foi tomada: o desapego.

Tal palavra nos remete primeiramente a bens materiais, porém neste processo descobri que significa muito mais do que isso. Refiro-me ao desapego da rotina, que já está implantada há tantos anos em minha vida ou até mesmo de facilidades que a desigualdade social do nosso país nos permite ter, como fazer as unhas toda 2ª feira, desta forma sempre estando com as mãos impecáveis, ou de poder contar com uma auxiliar em casa, que lava, passa e guarda minhas roupas, cuidando da minha casa de forma exemplar. Desapego de já conhecer as ruas, os bairros, de saber para onde correr em caso de emergência. Desapego de conseguir se comunicar em seu idioma nativo, conseguindo sempre se expressar apropriadamente. Também não foi fácil desapegar do trabalho com o qual me sinto segura, sou bem vista, bem remunerada, e no qual possuía boas perspectivas de crescimento.

Porém, acima de tudo, refiro-me ao desapego da convivência com as pessoas. Esta foi a parte mais difícil. Quando me dei conta que os churrascos na minha casa não dependeriam apenas de conciliar agendas para acontecer, que os almoços em família não teriam mais data para se repetir ou que os encontros recorrentes com as vizinhas não ocorreriam na próxima 4ª feira, o bicho pegou. Demorou, mas a ficha caiu. E quando isso aconteceu não foi fácil. O primeiro chororô aconteceu cerca de um mês antes da viagem. Estava eu e meu travesseiro, só nós dois. O sentimento era de uma ambiguidade ímpar; ao mesmo tempo que a felicidade tomava conta pelo que estava por vir, a saudade precipitada era dominante. Veio em minha cabeça como seria me despedir de todos, sem saber quando os veria novamente, ou mesmo se algum dia os voltaria a ver. Pensei em meus avós idodos, meus pais, no cheiro da minha mãe que até hoje me conforta. E de repente a insegurança de refazer a vida, de explorar um novo lugar, se reestabelecer física e financeiramente, tornou-se secundária ao ser comparada a saudade que sentiria dos entes e amigos queridos. Amizades verdadeiras não são feitas da noite para o dia, essa página talvez demore a ser escrita neste novo livro. Amizades de infância permanecerão no Brasil, da mesma forma que familiares e vizinhas que hoje estão lá para muito mais do que uma xícara de açúcar.

O desapego é necessário para que novos ares venham, que novas descobertas sejam realizadas, novos objetivos sejam alcançados. E é necessário que aconteça de forma gradual, natural e completa, para que a nova aventura seja vivida em sua plenitude.

Desapegar do carro, apartamento recém-reformado, de roupas enviadas para doação ou livros vendidos ao sebo a preço de banana, foi fácil. Difícil é o resto.