Foi por pouco

É a nossa última semana no Brasil. As coisas estão tão corridas nesta reta final que tenho ficado até mais tarde no escritório.

São 21:40h da noite. O corpo pede trégua depois de um dia que começou as 7h. Apago as luzes, tranco a porta e caminho até o elevador. Organizando mentalmente a agenda do próximo dia e as tarefas que ainda preciso executar ao chegar em casa, desço até a garagem. Entro no carro, coloco o cinto, giro a chave no contato, ligo o rádio, acendo os farois e engato a ré. Tudo tão automático e tão interligado. Viver em SP é viver dentro de um meio de transporte, seja ele qual for, amargando algumas horas do trânsito cotidiano. Seria só menos um dia daqueles que ainda sobram.

A borracha termina de assoviar em atrito com o chão e já estou de frente para o portão, esperando pelo porteiro. Lentamente a cremalheira faz seu esforço para me permitir sair. Em determinado ponto ela faz um barulho, quase um solavanco, cuja já tomei como base para pisar no acelerador, completando um bale de sincronia entre o carro saindo e o portão terminando de abrir.

No trajeto do dia-a-dia existe o tunel Ayrton Senna, se adentro estou a caminho de casa. Se o contorno, me dirijo a casa dos meus sogros. Estava com o carro da minha sogra - gentilmente emprestado - pois dada a mudança para o Canada vendemos o nosso. Meu corpo por instinto colocou o carro no trajeto de casa. No último instante a mente, em um lapso, lembrou que era necessário devolver o carro e abruptamente mudei a direção no último instante. Os pneus tocaram os sinalizadores que dividem as faixas de rolagem. Tudo balançou. O carro estava carregado de caixas da mudança, por isso verifiquei através do retrovisor se tudo estava em ordem e no seu devido lugar. Sim, dentro do carro e com os objetos estava tudo certo. Porém percebi algo estranho.

Apenas um farol e a silhueta de um capacete fazendo o mesmo movimento que o meu carro, como se aquele motorista também tivesse errado seu caminho. Imediatamente entrei em estado de atenção, abusei do acelerador e percebi que aquele sujeito poderia ter o mesmo rumo que o meu por outro motivo. Sim, era uma incerteza e uma tensão natural de quem acompanha a violência dia-a-dia no noticiário. Sorte ou coincidência, todos os sinais de trânsito estavam verdes para o minha passagem e consegui tomar certa distância da sombra atrás da luz daquele farol - nesta altura ignorando qualquer lei de trânsito e seus limites.

Na rua onde residem meus sogros vi novamente o capacete aumentando de tamanho no retrovisor. Instintivamente apontei o carro para o portão de entrada e percebi que a intenção do meu perseguidor era abordar minha porta pois fez o movimento nesse sentido, se colocando na contra mão. Rapidamente girei o volante para o lado oposto e segui pela rua não permitindo a aproximação da moto. A perseguição continuou, até que cheguei em uma curva aberta de umas das ruas próximas onde há um canteiro central que divide as faixas. Não tive dúvidas, apesar do risco e da imprudência, entrei na contra mão e tomei a primeira rua a esquerda.

Infelizmente não foi rápido o suficiente para despistar as duas rodas que me buscavam. Felizmente poucos metros da esquina estava uma viatura da polícia militar que percebeu a forma e a velocidade em que entrei naquela rua de bairro. Ao mesmo tempo pisquei os farois em ritmo alucinado, depois desci o vidro, gesticulei simulando uma arma e apontando para trás. A experiência daqueles polícias foi crucial para perceber que algo de errado estava acontecendo e que não era apenas uma infração de trânsito. A moto logo apareceu na esquina, e na velocidade em que vinha fez a curva ao mesmo tempo que percebeu que já era tarde para escapar do enquadramento da lei.

- Desce da moto, mão na cabeça e deita. Não tenta dar pinote que é ruim para você.

Ouvi o policial gritando repetidamente há alguns metros atrás do meu carro, de dentro da viatura já com a arma pra fora. Tudo muito rápido e eu tentando entender o que era pinote. O sujeito desceu, deixou a moto cair letamente no chão obedecendo aos gritos ou ao seu próprio medo. Poucos minutos depois uma outra viatura chegou. Um dos policiais veio até mim, fez algumas perguntas e falou com uma calma assustadora:

- Ele estava com uma pistola e provavelmente iria te abordar na sua próxima parada...

Ali desabei e fiquei atonito por certo tempo a ponto de não lembrar como o policial terminou a frase. A última coisa que lembro de ter ouvido era que estava liberado e que se quisesse uma viatura poderia me acompanhar até em casa. Agradeci muito, entrei no carro e segui meu caminho. Não vi a cara do sujeito, só queria sair dali, ouvir a voz da minha esposa e voltar pra minha casa.

Felizmente nada aconteceu - se é que o susto, tensão e stress não contam - apesar do risco que corri, tanto pela situação quanto pelas decisões imprudentes que tomei.

Definitivamente não precisava desse empurrão, tapa na cara ou como quiser chamar. A decisão de ir para o Canadá não é isolada por causa ou centrada na violência, política, saúde (sic), educação (sic), corrupção, eleições ou economia atual do Brasil. A soma desses fatores atrelado a questões do dia-a-dia nos fizeram escolher deixar o país. O ocorrido só reforça a certeza pois nunca houve dúvida de que é hora de partir.